Classic Reviews – Batman: O Longo Dia das Bruxas


Era um dia qualquer em 2008.

Desde que havia visto “V de Vingança” e “Batman Begins” no cinema há poucos anos atrás, meu interesse por quadrinhos adultos tinha crescido. Já tinha conseguido ler alguns clássicos como o próprio “V”, “Cavaleiros das Trevas” e “Watchman”, e sempre que ia a bancas e livrarias passava vários minutos procurando por encadernados e edições especiais dessas grandes estórias.

Nesse dia lembro que estava particularmente cansado. Havia ido ao shopping com meu pai mais para agradá-lo. Almoçamos e, como sempre fazíamos, fomos à livraria antes de ir embora. Lá, logo que cheguei ao setor de quadrinhos, me deparei com a bela capa do encadernado que a Panini havia lançado. E dentro? E dentro uma das melhores estória já escrita do vigilante de Gotham.

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“Batman – O longo dia das bruxas” é uma série lançada originalmente entre 1996 e 1997 pela DC Comics. Escrita por Jeph Loeb e desenhada por Tim Sale. Nela vemos Batman, Jim Gordon, e o então promotor Harvey Dent trabalhando lado a lado para dar fim ao grupo do mafioso Carmine Falcone. Em meio a tudo isso eles ainda tem de lidar com um misterioso vilão apelidado de “Feriado”, que está matando membros importantes das famílias mafiosas e Gotham, uma pessoa em cada dia comemorativo.

A série começa com a frase: “Eu acredito em Gotham City”, e termina com “Eu acredito em Harvey Dent”.

Já ouviu isso em algum lugar, certo?!?

Certo. “O longo dia das bruxas” é, juntamente com “A piada mortal”, a HQ que mais influenciou o roteiro de “Dark Knight” dos irmãos Nolan. Não é a toa que o encadernado da Panini conta com uma conversa que Nolan teve com David S. Goyer, pouco antes do início das filmagens de “O Cavaleiro das Trevas”.

“NOLAN: Enquanto escrevemos o roteiro e Batman: Cavaleiro das Trevas, O Longo Dia das Bruxas está se tornando uma forte influência (…) Escrevendo Batman Begins sempre falamos muito sobre encaixá-lo no filme de algum jeito. Acho que ele estava lá desde o início do desenvolvimento do roteiro.”.

“O longo dia das bruxas” poderia ser apenas a estória de como (SPOILER ALERT!) de como Harvey Dent se tornou um dos vilões mais icônicos do Morcegão, a queda do “cavaleiro branco de Gotham”, mas é muito mais que isso.

Tendo como linha mestra a união de Dent, Gordon e Batman contra a máfia e o surgimento do misterioso “Feriado”, a série faz ótimas incursões para “dentro” dos personagens, mostrando suas motivações, medos e inseguranças, tudo isso alimentado por um sentimento constante de insegurança que a série carrega durante toda a trama.

O traço e as cores utilizadas por Tim Sale casam perfeitamente com a estória, imprimindo no papel o clima noir que o enredo pede. Sombras e cores variam de uma página para a outra, de acordo com o momento e os personagens em destaque, servindo quase que como um termômetro do humor do momento da HQ. Não são poucos os quadros em que vemos Dent com metade da cara envolto em sombras.

“NOLAN: É um épico de crime. Jeph Loeb fez esse incrível trabalho de pegar os elementos mais exóticos do universo do Batman e coloca-los num mundo mais plausível. Pegou personagens de suporte e insuflou com vida e emoções reais E consequências reais para suas ações…”.

Dividido em 13 capítulos, cada qual dedicado a um feriado, a busca do trio de heróis por Falcone e sua família se intercala com um verdadeiro desfile de todos os grandes vilões do universo de Gotham, todos curiosos com a aparição do misterioso vilão “Feriado”. Charada curioso com o enigma; Coringa com a concorrência, todos da cidade parecem se deixar influenciar pela chegada de um novo ator ao palco.

O irônico é que, no fim das contas, o mistério a respeito da identidade de “Feriado” é o que menos conta nessa estória: ela é a respeito dos personagens já existentes e suas “máscaras”. Uma dessas máscaras mais bem abordadas é da relação entre Selina Kyle/Mulher-Gato e Wayne/Batman, que durante a trama se encontram constantemente, ora como interesse amoroso um do outro, ora como inimigos em combate.

De todas as “máscaras” dissecadas na trama, sem dúvida alguma a mais interessante é a de Harvey Dent. O admirado e temido promotor de Gotham desde o início já da sinais de cansaço. Implacável e defensor das leis, o promotor se frustra por não conseguir prender os mafiosos Falcone, mesmo todos sabendo dos “negócios da família”.

A partir do momento que se une com Gordon e Batman para desbaratar toda a organização mafiosa, Harvey Dent se lança de forma irrefreável em busca de seu objetivo. Todos os seus atos e consequências que se seguem a eles faz crescer sua descrença no sistema de justiça que defendeu a vida toda. A sombra de seu rosto vai crescendo e tomando forma, em seus diálogos vamos vendo notas de desgosto e amargura.batman-e-selina

Quando sofre a traição final no tribunal. o local/símbolo do que acreditava e defendia, a virada final do personagem ocorre: A justiça humana é corrupta, o sistema é quebrado. A única justiça verdadeiramente incorruptível é a da sorte, do acaso. Tão simples quanto um lançar de moeda.

Harvey Dent representa o cavaleiro caído. A retidão incapaz de viver com a corrupção. O “duas-caras” que, por ironia, não consegue fazer com que as duas convivam concomitantemente. Ao contrário dos outros personagens da estória, não há máscara para Dent vestir.

Se você gosta de quadrinhos, em especial as tramas sombrias e psicológicas do morcegão, esse é um arco de leitura obrigatória, que já tem seu lugar no Panteão de melhores estórias de quadrinhos á feita.

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